A Névoa Seca Que Cobre o Sudeste Asiático Há 20 Anos

O sudeste da Ásia sofre há 20 anos com uma névoa seca proveniente de diversas fontes tão turvas quanto o futuro da solução desse problema. Entre os focos da poluição do ar há o fluxo intenso de emissões originadas em veículos e fábricas na China e na Índia; e queimadas na Indonésia para limpar terrenos para cultivo, mas que podem acabar destruindo plantações de produtores locais.

As emissões de uma queimada dependem da composição da turfa, da temperatura do fogo e do seu efeito no solo. Mas esses detalhes ainda não são disponibilizados pela Indonésia, cuja turfa cobre uma área do tamanho do Reino Unido. Por causa disso, disse Kuwata, “nós não temos um levantamento confiável” sobre as queimadas no país. Kuwata queima amostras da turfa indonésia em seu laboratório, na Singapura, para estudar suas propriedades químicas; no entanto, seu estudo é limitado, pois ele nunca tem certeza se suas experiências retratam a realidade.

Na matéria Por que o Sudeste Asiático está coberto de fumaça?, publicada em português na Gizmodo Brasil, o jornalista Mike Ives conta as muitas histórias cobertas pela fumaça, e o que políticos e ativistas estão fazendo para buscar soluções em meio aos desafios políticos do Sudeste Asiático, onde os integrantes da ASEAN tendem a ver o desenvolvimento econômico, a soberania nacional e a não-interferência mútua como prioridades.

É dentro desse cenário que Tan Yi Han, o consultor financeiro de Singapura e ativista autodidata, está tentando incentivar a discussão sobre a névoa. No começo de 2014, ele criou uma organização chamada Movimento do Povo Contra a Névoa, ou MP Névoa, para fomentar esse debate. “Eu sinto que precisamos de mais influência”, disse Tan em uma reunião da MP Névoa realizada num domingo à noite. A reunião só contava com outro participante: Putera Zenata, um professor indonésio que se juntou ao grupo após ler sobre o projeto de Tan na internet. O local de encontro era o apartamento modesto de Zenata em um bairro de classe média de Singapura.

Além dos prejuízos econômicos, os efeitos da fumaça podem ser devastadores para a saúde pública tanto local quanto de regiões vizinhas, já que a poluição não respeita barreiras geográficas.

Rajasekhar Balasubramanian, um engenheiro ambiental que estuda a névoa seca na Universidade da Singapura, especula que a exposição prolongada à episódios da névoa pode piorar a saúde geral da população, mesmo que as pessoas continuem a viver por muitos anos. Em um estudo de 2013, ele e seus colegas descobriram que o ar de Singapura durante um episódio de névoa seca continha arsênico, crômio, cádmio e outros elementos cancerígenos. Eles estimam que, em níveis de poluição comuns, cerca de 12 pessoas a cada milhão desenvolverão algum tipo de câncer; no entanto, se o país ficasse coberto pela névoa por 10 dias todo ano, o número de casos de câncer poderia dobrar.

Leia Por que o Sudeste Asiático está coberto de fumaça?.

A matéria foi publicada originalmente em inglês na Mosaic, e republicada traduzida na Gizmodo Brasil sob uma licença Creative Commons.

Leia também as referências (em inglês) citadas na matéria original:

Who started the fire? Burning peatlands may be the cause of South-east Asia’s haze, but who’s to blame?.

A research paper estimating global mortality attributable to smoke from landscape fires. Published in the journal Environmental Health Perspectives in 2012.

‘Wildfire Research Confirms Health Hazards of Peat Fire Smoke’ – a 2011 article from the US Environmental Protection Agency.

Bissexualidades e Bifobias

A Jarid Arraes escreveu uma ótima matéria sobre bissexualidade e relacionamentos abusivos para a Revista Fórum. Jarid entrevistou Paulo Cesar Góis (@themoonymoons), integrante do coletivo Bi-Sides (@bi_sides), e Amanda Bastos, integrante do Coletivo Guarda-Sol (@GuardaSol_RJ). O texto foca em desmistificar os discursos que promovem apagamento das pessoas bissexuais e as agressões psicológicas que elas sofrem em seus relacionamentos.

“Quando um homem, em particular hétero, diz que gosta que a companheira seja bi, é um passo rumo a objetificação e a hipersexualização”, alerta Bastos. “Há bifobia aí quando essa expectativa de que a mulher bi sempre quer sexo é quebrada. A partir daí vem a deslegitimação, aparecem as desconfianças de que o homem será trocado, surgem as perguntas mais invasivas sobre experiências anteriores com outros homens e, em particular, com mulheres. Já estive nessa posição em que o homem – não consigo chamar de parceiro, porque nunca houve de fato uma cumplicidade – está na relação e começa a hipersexualizar, conta para os amigos se gabando e, quando a expectativa é frustrada, começa o processo de deslegitimação, de questionar se eu sou de fato bi, como se eu devesse provar algo. Quando a bifobia aparece em um relacionamento afetivo-sexual, inevitavelmente deixa marcas. Para mim, essas marcas foram mais profundas do que a bifobia do dia-a-dia”, relata.

A matéria também ressalta a interseccionalidade de opressões que se inserem nas bifobias:

O militante ainda explica a necessidade de se compreender a interseccionalidade entre questões como gênero, raça e classe econômica. São diversos os fatores que podem gerar vivências específicas de bifobia, onde ainda existe o racismo, a transfobia e a misoginia. “As mulheres, por exemplo, experienciam uma forma de bifobia mesclada ao machismo e à misoginia que não atinge homens cis bissexuais”, exemplifica.

Esse cruzamento de problemáticas é um aspecto que me preocupa em especial. Já comentei em outros espaços e vou repetir aqui: até o ano passado eu não fazia ideia que podia me identificar como bissexual mesmo não sentindo atração por homens. E isso veio a partir do meu entendimento de que existe uma quantidade infindável de gêneros, não apenas o sistema binário de homem e mulher. Enquanto pessoa trans de gênero fluido, minha sexualidade se encaixa no guarda-sol bissexual pois sinto atração por mulheres e pessoas não-binárias. Chegar a essa paz de identidades foi um alívio incomensurável.

Leia o texto Bissexualidade e relacionamentos abusivos e compartilhe.

Leia também “O B de LGBT poderia significar ‘banana’ que ninguém se importaria”, outra matéria sobre bissexualidade feita por Jarid Arraes, publicada em 22 de Janeiro desse ano:

A mídia carrega grande responsabilidade pelo apagamento bissexual. “Recentemente, o desenho *Avatar: A Lenda de Korra* retratou um casal de mulheres bissexuais (envolvendo a protagonista, que inclusive não é branca!) e, se de um lado o público hétero via ‘apenas amigas’ e nos chamava de exagerados, do outro a pressão para dizer que elas eram lésbicas durou até que os próprios autores da série disseram que são bissexuais de fato e que, sim, a gente existe”, conta Góis. “Mas imaginemos que isso não aconteça, afinal, pouquíssimos autores se posicionam sobre isso: continuaríamos achando que as personagens são héteros ou lésbicas quando na verdade são bissexuais. E isso acontece em grande escala, não só em ficção como no mundo real, nos deixando sem exemplos positivos”.

Sexo e Sexualidade Nos Videogames

Lembro da primeira vez que me senti desconfortável jogando videogame. Eu era adolescente e estava na sala de casa jogando com uma amiga, uma menina alguns anos mais nova que eu (e que já conhecia o jogo e estava me guiando pelos controles). A porradaria toda era fascinante, claro. Sempre curti ver o sangue jorrando em jogos desde que eu era um pirralho vidrado em Mortal Kombat e Carmageddon. Mas não foi a violência que me fez querer desviar os olhos. Foi um minigame em God of War, onde o protagonista trepava agressivamente com uma mulher e nosso objetivo como jogador era manter o ritmo da foda até que quebrar um vaso ao lado da cama. Agora, não foi o sexo em si que me deixou desconfortável—e essa não foi a primeira vez que me deparei com sexo em videogames. Foi o contexto. Num segundo estamos quebrando a cabeça de todo mundo, então do nada temos que trepar loucamente com uma mulher aleatória, e logo depois voltamos à porradaria e—ugh.

Como em tantos outros jogos que fui descobrir mais tarde, o sexo era tratado como teste de masculinidade ou recompensa para o macho protagonista da história—e as mulheres envolvidas eram meras bonecas sem agência.

Marco Rigobelli escreveu um excelente artigo para o POP Games falando sobre o tratamento do sexo e da sexualidade em videogames, desde suas primeiras aparições cruas até os tabus contemporâneos—desde as discussões sobre o que constitui pornografia até as polêmicas em volta de personagens homossexuais.

Em nossa sociedade, o sexo precisa funcionar sob regras estabelecidas dentre as quais o sigilo é a mais importante de todas. Todos sabem que as outras pessoas fazem sexo, mas as convenções mandam que paremos por aí. E é por isso que discutir sexo com os amigos, trocar experiências, revelar segredos, pareça tão interessante quando na verdade é algo bem mundano. Somos tão condicionados a manter nossa — imaculada — figura humana distante da sexual, mesmo que ambas na verdade sejam uma só, que até tratamos a sexualidade com uma devoção desnecessária. Para o bem e para o mal, damos mais importância ao sexo do que ele realmente tem. E pode parecer confuso, mas agora que a situação chegou a esse ponto e está cada vez mais evidente que ela precisa mudar, a importância dada ao sexo é coerente com a necessidade de o desmistificarmos e passarmos a tratá-lo como algo corriqueiro. Nós devemos nos importar com sexo para que possamos deixar de nos importar tanto assim, e o entretenimento tem seu próprio papel nisso tudo, inclusive os videogames.

Leia Apertando os botões certos: sexo e sexualidade nos videogames.

As 10 Mentiras Mais Contadas Sobre Os Indígenas

O site da AXA (Articulação Xingu Araguaia) publicou um excelente artigo na seção de reportagens especiais: As 10 Mentiras Mais Contadas Sobre Os Indígenas é uma das melhores leituras que fiz recentemente. Há uma importância crucial na desmistificação e na desconstrução de estereótipos se quisermos entender aqueles que são diferentes de nós—o perigo de uma narrativa única e homogênea sobre um grupo tão diverso é o combustível para a desinformação, a ignorância, e para os discursos de ódio anti-indígena.

Agora os povos indígenas voltam a afirmar sua identidade, talvez porque as circunstâncias estejam mais amigáveis. Ou talvez porque este grito não suporte mais ser calado. Tratá-los simplesmente como “índios” esconde a imensa diversidade cultural e circunstâncias de vida tão distintas. Mas algo muito mais forte que as diferenças étnicas propicia a união destes povos: o fato de se sentirem diferentes de nós. Temos no Brasil todos os tipos de extremos: índios que possuem seu território assegurado e índios que morrem lutando por seu território; índios brancos e índios negros; índios cristãos e índios pajés; índios isolados e índios urbanos.

Dentre as 10 mentiras desconstruídas ao longo do texto estão discursos como os de que índios são preguiçosos e não gostam de trabalhar—um mito que já parte de uma visão capitalista, colonizadora, e opressora.

A lógica indígena, tradicionalmente, não se interessa em acumular, e sim em desfrutar. Portanto, se antes do sol chegar ao alto do céu, o homem já pescou peixe para a família toda se alimentar naquele dia, ele pode voltar para casa e descansar, pois sua obrigação já foi cumprida. Mas espera aí… caçar, pescar, plantar, colher, manejar, construir sua casa, fazer seu barco e fazer tudo mais que uma vida auto-subsistente necessita não parece nada fácil. Imagine então que para realizar cada uma destas tarefas é preciso muitas outras. Para fazer o barco, por exemplo, é preciso entrar no mato, encontrar uma árvore de uma espécie específica que esteja num bom tamanho e formato, derrubar a árvore, tirar da floresta, cortar e moldar a madeira, queimar de um modo específico com uma lenha específica, moldar novamente como o avô ensinou, queimar de novo, e pronto, finalmente ele tem o barco para pescar, resumidamente. Quem se habilita?

Para conhecer a diversidade dos povos indígenas em nosso país, precisamos exercer nossa empatia—e nos tornarmos conscientes do que está acontecendo nas lutas por terra, dos interesses capitalistas do agronegócio, e do sangue que escorre das mãos da Bancada Ruralista. Desmistificar as existências e realidades dos índígenas é o primeiro passo.

O artigo é assinado por Lilian Brandt, antropóloga e colaboradora da AXA.

Os Interesses Da Indústria Do Cárcere Na Redução Da Maioridade Penal

Quando vi através de reações de amigos na timeline que a PEC 171/93 (que reduz a maioridade penal para 16 anos) foi aprovada pela CCJ, subiu um calafrio na espinha e um desconforto que se aninhou na base do crânio e não saiu mais. Tenho tentado evitar debates infrutíferos com quem tá achando a PEC 171 uma maravilha para os –argh! cidadãos de bem. (Eu me considero cidadone de ruim). Se não incluírmos os ângulos do racismo, da pobreza, do abuso e brutalidade policiais, do encarceramento compulsório, então não é possível termos uma conversa sobre maioridade penal—e reintegração social.

E não podemos nos esquecer dos interesses capitalistas que fundamentam o problema. Pablo Polese escreveu para a Passa Palavra o artigo A redução da maioridade penal face à indústria do cárcere, onde explora os motivos econômicos e os interesses privados por trás da redução.

Ademais dos lucros diretos do consórcio de empresas que administra a Penitenciária, e que por isso não pode contratar os presos a fim de explorar sua mão de obra diretamente e em atividades para além da manutenção cotidiana da prisão, há ainda as outras empresas que estão autorizadas a auferir lucros com o trabalho dos presos. E se trata de uma força de trabalho disputada a unhas e dentes pelos capitalistas, afinal as condições de trabalho dos presos não são regidas pela CLT e sim pela Lei de Execução Penal (LEP), de 1984; os presos, por estarem mais rigidamente controlados, estão impossibilitados de se valer dos mecanismos básicos de conflito social e pressão por melhores salários ou condições de trabalho, via greve etc. Se no mercado de trabalho comum nenhum trabalhador pode receber um salário inferior ao salário mínimo, a LEP, por outro lado, autoriza que os presos recebam apenas 75% de um salário mínimo, sem nenhum benefício. Por conta disso a força de trabalho do preso sai até 54% mais barata do que a de um trabalhador não preso assalariado e com registro em carteira.

Quando confrontados com questões dessa magnitude, é sempre importante olhar para onde o capital tá fluindo.

Em Fevereiro de 1971, Michel Foucault deu uma famosa declaração sobre as condições das prisões francesas durante uma conferência de imprensa (leia o manifesto do Groupe d’Information sur les Prisons na íntegra, em francês e inglês). Deixo aqui um pequeno trecho:

Eles nos dizem que as prisões estão superpovoadas. Mas e se for a população que está sendo superencarcerada?

As Masculinidades De Protesto Dos Homens Cabo-Verdianos

Quando leio reflexões sobre a emancipação de mulheres em cenários de misoginia sistêmica e institucional, gosto de procurar observações sobre as consequências dessas mudanças na vida dos homens locais. E não é pra caçar ego ferido de macho, é porque há desenrolares bem instigantes em determinadas situações. A recomendação de hoje é um exemplo.

O artigo THUG LIFE E ATIVISMO SOCIAL – construções de masculinidades de protesto nos bairros populares da Cidade da Praia (Cabo Verde), escrito pela doutoranda em Ciências Sociais Silvia Stefani e publicado na revista de antropologia Novos Debates, discorre sobre os modelos de masculinidades próprios da sociedade cabo-verdiana atual. A autora escreve sobre a crise de jovens rapazes frente às mudanças socioeconômicas que enfraqueceram o domínio masculino e sua identificação com a cultura do hip-hop na formação de gangues urbanas conhecidas como thugs.

Enquanto os grupos thug se referem à cultura transnacional hip-hop e adotam como modelo o rapper afro-americano Tupac, os ativistas desenvolvem uma proposta afro centrada, que visa a valorizar os caracteres de africanidade da cultura cabo-verdiana. Os ativistas recuperam a figura de Amílcar Cabral, herói nacional de liberação, e elementos da religião rastafári, criticando as posições filo-ocidentais da elite cabo-verdiana. Para além, ambas as organizações são portadoras de instâncias de resistência e crítica social, embora expressas de maneira diferente. As gangues, de fato, atuam numa crítica ao sistema dominante através da arma do estilo e expressões artísticas de sensibilização, como o gangsta rap. Todavia, esta crítica se acompanha a outras dimensões que a enfraquecem, como a guerrilha urbana entre grupos rivais, que produzem uma alta taxa de violência e se tornam um ulterior elemento de marginalização das camadas sociais mais pobres. Ao contrário, os ativistas fazem da denúncia social o foco das próprias organizações e desenvolvem ações de políticas urbanas concretas.

O texto parte de uma pesquisa feita pela autora, que incluiu entrevistas extensas com moradores dos bairros e ativistas locais.

“Hoje thug é um nome… para marginaliza a gente! Eu gosto de Tupac, porque ele canta bom rap, dá uma boa fala, contra o sistema, o governo. Mas agora thug é um nome que o sistema mesmo dá nos, para marginalizar-nos. Porque thug é bandido, nos somos todos manchados!” (Entrevista com Silvio, membro de um grupo thug)

O artigo é ilustrado com fotografias muito bonitas tiradas pelos próprios jovens participantes do estudo.